Técnicas de ensino devem ser adaptadas para a geração internet?
Prof. Masakazu Hoji (*)
Da última vez que você esqueceu onde se encontrava determinado assunto ou material para apresentar em suas aulas, não deve ter se preocupado muito. Simplesmente, "googlou" (do verbo "googlar") e achou o que precisava. Certo?
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Se a forma de pensamento e memorização da nossa geração (a dos professores) mudou, imagine a da geração dos alunos atuais, mais jovens, que praticamente nasceram conectados à internet. Se houve essa mudança na mente dos alunos, a forma de ensino não deve se adaptar a essa mudança?
No artigo publicado em novembro passado no ProfessorNews (Como fazer boa apresentação em sala de aula), falamos sobre a capacidade de aprendizagem e nivelamento de conhecimento.
Nesse artigo, apresentamos os princípios da Teoria da Carga Cognitiva, que trata da capacidade que o cérebro humano tem de assimilar informações. Para que o aprendizado de um assunto seja eficaz, é necessário que o aluno se concentre em capacidade auditiva ou visual, de forma não simultânea.
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De acordo com a pesquisa, publicada na revista Science em julho passado, esquecemos de coisas que estamos confiantes de que podemos encontrar na internet e, por outro lado, estamos mais propensos a lembrar de coisas que achamos que não estão disponíveis on-line. A pesquisa mostra também que somos mais capazes de lembrar onde encontrar algo na internet do que lembrar a informação em si.
Em outro artigo, publicado no início de dezembro com o título Is Google making Scientists Dumber? no site BitesizeBio, Emily Crow, que é PhD em Ciências da Vida pela Northwestern University, explica um pouco mais essa transformação social.
O Google está mudando o modo como pensamos e lembramos. Por que isso acontece? Como isso afeta o nosso cérebro? Emily Crow explica em seu artigo o que está ocorrendo e as consequências. Confira a seguir.
1 – Os serviços Google como extensões do conhecimento
Vários softwares fazem parte do nosso dia a dia. A seguir, citamos algumas das ferramentas da "família Google".
Google Search (ou simplesmente Google) – É o serviço mais usado na internet. Tudo que você quer saber está a um clique de distância. Digite a palavra ou frase que você quer pesquisar e milhares de fontes de informação estarão acessíveis em menos de um segundo.
Google Maps – O guia de ruas em papel tornou-se obsoleto. Com essa ferramenta, você não precisa mais memorizar endereços e direções.
Google Agenda – Nunca esquece um compromisso. Essa ferramenta lembra todos os seus compromissos; portanto, você não precisa memorizar as datas importantes.
Google Docs – Guarda suas anotações, documentos e outras coisas mais. Você não precisa se preocupar onde, ou se guardou algum arquivo. Pode compartilhar documentos.
Google Reader – Não há necessidade de se estressar tentando lembrar o nome daquele site que você gosta de visitar. É só se inscrever nos sites favoritos e receber atualização de conteúdos via RSS (ferramenta que informa a atualização de conteúdo de um site).
Google Translator – O Google traduz automaticamente páginas inteiras para sua língua nativa, além de checar a ortografia e a pronúncia.
Google Images – Não consegue se lembrar do nome do monumento ou da pintura? Não se preocupe. Tire uma foto com seu Smartphone e o Google irá ajudá-lo a descobrir o nome do objeto para o qual você está olhando.
Google Analytics – Essa ferramenta ajuda você a controlar e analisar o tráfico de seu site; portanto, não precisa fazer anotações ou controles manuais.
2 – Como o Google está mudando a memória?
Veja as diferenças entre "antes" e "agora".
No passado (sem Google)
Sem acesso a internet, nós tínhamos opções limitadas de fonte para pesquisa. Éramos obrigados a descobrir a melhor forma de memorizar se quiséssemos lembrar de algo importante, usando a memória visual e fazendo associações.
Logo, quando precisávamos da informação, era mais provável que lembrássemos, pois havíamos gasto o tempo necessário para gravar a informação na nossa mente.
No presente (com Google)
Com a internet, tudo está a um clique de distância. Quando não sabemos algo, estamos condicionados a ligar o computador para resolver a questão. Com sistemas de busca disponíveis a qualquer hora e local, não costumamos codificar a informação internamente, pois quando precisarmos, é só procurar na internet.
Logo, quando a informação é guardada externamente, não costumamos memorizá-la, mas sim lembrar o lugar onde podemos descobrí-la.
3 – Consequências
A simbiose criada com as ferramentas de nosso computador, torna-nos dependentes dele. Ou seja, a "máquina" torna-se nossa amiga íntima, "de confiança". Emily Crow coloca uma questão: isso é uma coisa ruim ou boa? Segundo suas análises, existem consequências boas e ruins.
Consequências boas:
a) guardamos a informação em nossas memórias baseadas no computador e elas se tornaram mais acessíveis;
b) a recuperação de dados ou informação é fácil; na maioria das vezes que precisamos delas, conseguimos lembrar e o Google ajuda-nos a evitar erros;
c) a informação acessível não necessariamente enfraquece a memória; ela pode reforçá-la e ser uma grande fonte de inovação.
Consequências ruins:
a) as ferramentas eletrônicas substituíram nossa necessidade de memorizar muitos detalhes e, na falta delas, podemos ficar sem informação ou ação (lembram daquela costumeira justificativa: "sinto muito, o sistema está fora do ar"?);
b) os novos hábitos podem interferir no desenvolvimento do conhecimento profundo e conceitual (os conhecimentos tornam-se superficiais);
c) a internet está repleta de informação incorreta, o que pode nos induzir a erros, se não tomarmos cuidado ao utilizarmos determinados dados ou informações.
Tudo que expusemos neste artigo, ainda é muito pouco. Até que ponto as técnicas de ensino tradicionais precisam ser adaptadas ou ajustadas em função da transformação que está ocorrendo na forma de aprendizagem e memorização dos nossos alunos? É uma boa questão para refletirmos durante o novo ano que se inicia.
Fontes: BitesizeBio; Columbia University; ProfessorNews
(*) Prof. Masakazu Hoji é diretor do Portal ProfessorNews
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